domingo, 27 de maio de 2012

yahoo #41 e #42

caramba, o festival sónar são paulo já aconteceu tem duas semanas! foi correria boa, muitos shows, várias coisas interessantes e nenhum grande problema (fora o som aqui e ali). e ainda encontrei amigos (oga mendonça, dudu tsuda, igor fediczko e o pessoal da gang do eletro) e pessoas que só conhecia virtualmente (chico dub, pedro pinhel, lauro mesquita, lorena calábria e felipe cordeiro). essa cobertura nada objetiva foi dividida em duas partes/dias no yahoo, mas aqui seguem juntas e com alguns videos oficiais do festival (o da gang do eletro já coloquei no post "eletro sónar") e fotos que tirei. o texto mais recente no ultrapop é "a hora e a vez do rap nordestino", sobre as novas rimas e sons da bahia (oquadro) e ceará (don l).


O primeiro dia

Festival criado em Barcelona lá pelos idos de 1994 unindo “música avançada” e tecnologia, o Sónar começou a se espalhar pelo mundo a partir dos anos 2000 e inevitavelmente chegou ao Brasil, mais precisamente São Paulo. A edição 2012 no país teve ontem seu primeiro dia (noite) e foi bastante movimentado. Com dezenas de atrações divididas em três palcos espalhados pelo Parque Anhembi, o Sónar São Paulo começou pontualmente às 20h com apresentações do duo catalão Za! e discotecagem do músico Maurício Fleury nos palcos Sónar Hall e Sónar Village, respectivamente. Enquanto os primeiros criaram uma atmosfera barulhenta e pretensamente engraçada (vocais esganiçados, por exemplo), Fleury, que é da banda Bixiga 70 e toca com músicos como Lucas Santtana e Pipo Pegoraro, soltou um setlist delicioso e totalmente afrolatinofunkbrasileiro. Pena que no início da noite só alguns gatos pingados tiveram a sorte de ouvi-lo.



Após o Za! foi a vez do brasileiro Ricardo Donoso no Sónar Hall – nada menos que o célebre palco do Anhembi que recebeu shows históricos de Elis Regina, Doces Bárbaros e o festival Phono 73 – e a situação não melhorou muito pelas bandas de lá. Etéreo e vazio poderiam definir o show, mas como geralmente tenho preguiça de música eletrônica ao vivo não sou uma fonte confiável. No mais, era tempo de ver a primeira apresentação do principal palco do festival, o grande Sónar Club. Quem abriu os serviços foi o elogiado músico e produtor inglês James Blake, mas nessa primeira noite usando a capa de DJ (ele se apresenta com banda no segundo dia). Não funcionou. Arrastado, o setlist de Blake foi um enfileiramento de dubsteps tanga frouxa e sua cara de paisagem não ajudou muito a esquentar a entrada para uma das grandes atrações da noite, os alemães do Kraftwerk.

Enquanto isso no Sónar Hall, a veterana pianista Clara Sverner lutava ao lado do filho, o designer gráfico Muti Randolph, contra problemas de som e barulhos externos. O repertório erudito-popular de Clara foi sendo paulatinamente soterrado por essas questões e as intervenções gráficas de Randolph no telão (sincronizadas e inspiradas pela música) pareciam datados a olhos mais jovens. Seria uma ótima apresentação em outro lugar, ali ficou deslocado e foi prejudicado. Ao lado, no Sónar Village, o produtor norte-americano Cut Chemist deu o primeiro e enérgico sinal que a noite iria esquentar. Ex-integrante do lendário Jurassic 5, Chemist tocou o terror nas picapes de uma forma vibrante e divertida.

Então, por volta das 23h e já com um público bem maior, o festival recebeu o Kraftwerk. Impressionante com os sons eletrônicos quarentões criados por Ralf Hutter e sua turma germânica (ele é o único membro original presente) continuam soando modernos. Talvez a explicação seja porque a música do Kraftwerk continua carregando a surpresa da descoberta, a alegria da experimentação, e isso a fazer ser muito mais que eletrônica (sem desmerecimento nenhum ao gênero, claro). O público urrava a cada hit que aparecia, tais como “The Robots”, “The Model”, “Autobahn” e “The Man-Machine”. E o público também urrava com a ótima projeção 3D. Lá no palco os quatro homens eletrônicos permaneceram estáticos e silenciosos e ainda assim fizeram um show mais pesado e totalmente atual (além de melhor que o da última vez que estiveram aqui, em 2009).

Do outro lado do Anhembi, no Sónar Hall, Criolo enfrentou a pesada concorrência com sua habitual energia, humor, balanço e politização (sem falar na sua afiadíssima banda). Apesar de problemas com o som – que apareceram em todos os shows, com maior ou menor ênfase, mas nada que chegasse a fatalidade -, o MC paulistano mandou todos os seus sucessos de crítica e público e não teve dificuldade alguma em ganhar o público. Ali perto, o lendário DOOM, um dos mais importantes nomes do rap underground norte-americano, tocou fogo no público do Sónar Village. Rappers brasileiros que estavam ali como Rodrigo Ogi, Macário, Kamau e Max B.O. vibravam a cada porrada sonora de seu ídolo e já era possível ter certeza que a noite teria motivos de sobra para ser lembrada por muito tempo.



Zegon, DJ que era do Planet Hemp e depois partiu para uma excelente carreira de produtor, teve a dura tarefa de manter o pique pós-DOOM e conseguiu se utilizando de variedade e alguns convidados. O primeiro foi RAPadura, jovem rimador do Ceará que cruzou Luiz Gonzaga com velocidade e impressionou muito quem ouviu. Depois entrou um sujeito da Indonésia, mestre do talk box, mas era hora de Little Dragon, outro dos shows muito esperados da noite. Foi a primeira vez que o quarteto sueco pisou no Brasil e a vocalista Yukimi Nagano fez questão de frisar o fato, mas nada disso foi problema para uma plateia cheia (ainda mais que a do Criolo) e que conhecia várias músicas dos três discos da banda e principalmente do último Ritual Union. Quem esperava uma apresentação mais tranquila foi presenteado com um Little Dragon mais roqueiro e a bela Nagano dançando muito, toda a vontade.


é a nagano (little dragon) ali no centro

Duras horas da manhã e o gás acabando. Rumo à última grande atração da noite, a dupla Chromeo, passo pelo show do Emicida e tudo está muito bem, obrigado. O rapper paulistano não para de crescer e dominar seu ofício, além de conseguir um fato raro entre artistas brasileiros: seu amadurecimento artístico-pessoal é compartilhado com seu público, que acaba amadurecendo junto. Maravilha. Mas lá vou conhecer esse tal de Chromeo, a união de Dave 1 e P-Thugg, enquanto uma leve garoa surge sem cerimônia.

É fácil entender o apelo do som da dupla e tinha bastante gente lá para comprovar isso. Pop esperto, espírito retrô, algum humor e muita energia são combinados em uma hábil montanha russa de estímulos. Muita gente gostou, considerou o show da noite e coisa e tal. Só achei bem feito, mas não me pegou porque parecia programado demais. De qualquer forma, uma ótima primeira noite, sem grandes frilas, bastante espaço, muita variedade.



O segundo dia

O batidão começou às 16h no sábado do Sónar São Paulo. E quem deu início aos trabalhos do dia foi Dago, DJ da Avalanche Tropical, com um setlist divertido e pesadão, guettotech e outras bossas, no Sónar Village. Cheguei ao final, o clima estava bom e tinha mais gente que no início do primeiro dia. No palco ao lado, o ótimo Sónar Hall, algum problema de origem desconhecida fez com que o primeiro show, do Psilosamples, atrasasse uma hora e meia. Teve um lado bom nisso porque consegui assistir o show do mineiro, da Gang do Eletro (no Village) e do SILVA (também no Hall), que no horário original iriam brigar.

Então o festival começou realmente (pra mim) com a Gang do Eletro, que conheço de outros carnavais e até protagonistas de um perfil que escrevi para a Vice Brasil (“Duas cabeças, uma levada”). Sou muito fã dos paraenses, portanto opinião suspeita, mas eles e ela estavam particularmente inspirados. Com figurinos meio tribais meio Tron, e tudo pintado com tinta fosforecente, Marcos Maderito, Keila Gentil, William Love e o DJ Waldo Squash estavam naquela eletricidade de quem está com muita vontade de fazer um showzão. Conseguiram, apesar de alguns problemas de som e o microfone de Keila teimando em cair.

Agora, quase tão bom quanto ver a energia e a música deles ao vivo é presenciar a reação de quem não conhecia ou não tinha visto ao vivo. Começa como espanto do tipo “O que é isso que está acontecendo na minha frente?” e depois vira sorriso besta, nada percebido racionalmente, pois desde o primeiro beat você já está dançando, jogando a mãozinha pro ar, compartilhando de toda a cultura das aparelhagens. E dá-lhe “Galera da Laje”, “Sinhá Puresa”, “Panamericano” e uma ótima participação do conterrâneo Felipe Cordeiro, cantor e compositor dessa nova onda paraense, colocando guitarrada no eletromelody (mais tarde, na sala de imprensa, Maderito anunciou que uma parceria entre eles estará no disco de estreia da Gang).


ao som de psilosamples

No Sónar Hall, Psilosamples finalmente subiu ao palco e fez uma apresentação intimista, bonita e cheia de camadas, mas talvez o Auditório Celso Furtado fosse grande demais para sua música. De qualquer forma, esse mineiro de Pouso Alegre continua fazendo um dos melhores e mais brasileiros sons eletrônicos do momento. Daí, na sequência, veio o capixaba Lúcio da Silva Souza, ou SILVA, que conseguiu cumprir as altas expectativas que surgiram ano passado com apenas as cinco músicas de seu EP. Suas delicadezas eletrônicas e acústicas sobreviveram a novos problemas de som e ainda estava genuinamente feliz e orgulhoso de tocar “12 de maio” exatamente um ano após a música ser composta e como atração de um festival importante como o Sónar. SILVA promete muito mais.



Não consegui entender o metal progressivo do anglo-norte-americano KTL, também no Sónar Hall, e só voltei ao recinto para testemunhar o grande show de Ryuichi Sakamoto e Alva Noto. Não esperava que estivesse tão cheio e muito menos que aquele tanto de gente fosse conseguir se comportar durante o show minimalista (piano, programações e o excelente telão acompanhando graficamente a música), mas deu tudo muito certo entre o japonês, o alemão e o público brasileiro. Até o som ajudou numa bela viagem sonora-visual.

Hora de tomar um ar no caminho para o gigantesco galpão do Sónar Club e acompanhar o primeiro show de Cee Lo Green no Brasil. Em termos gerais foi divertido, mas sabemos que o inferno está no detalhes. O som estava um horror, o grave muito alto embolando todos os instrumentos e sufocando no vozeirão de Cee Lo. Muito baseado no disco The Lady Killer, de 2010, o repertório do show não é dos mais vibrantes e só cresceu mesmo quando surgiram os hits “Fuck You” e “Crazy” (Gnarls Barkley, seu projeto com Danger Mouse).

Do outro lado do Anhembi, os escoceses do Mogwai promoveram um festival de distorções em altos volumes. Teve gente que achou que pedaços do teto iam cair. Outros sentiram instantâneos problemas de audição. Muitos amaram de paixão. Uma palavra (“progressivo”) martelava em minha cabeça música após música e sentia que aquela viagem não ia a lugar nenhum, parecia mais exibicionismo. Quer dizer, mas vai da viagem de cada um, né não? E falando nisso, de volta ao caixotão Sónar Club, o Justice rapidamente tomou conta de todos os muitos espaços e fez uma festa grande, muito bem iluminada, intensa. Entre Cee Lo e os franceses tocaram os niteroienses do The Twelves, baita responsa, mas vi muito pouco para falar qualquer coisa.

Nessa briga de gigantes peguei só um pedacinho do Flying Lotus e lamentei profundamente não tê-lo ouvido mais (escolhas, escolhas). Daí que minha maratona pessoal pelo Sónar São Paulo, para o Yahoo! Brasil, acabou no bom show do inglês James Blake. Entre melancolia e ruídos, paredes tremendo, destaque para uma longa versão de “Limit to Your Love” (Feist). E então o gás (definitivamente) acabou.

terça-feira, 22 de maio de 2012

esforçando o instagram #04

ou coisas que acontecem quando se está na rua...

"lesma é tu"

"máscara, nada mais"

"vidro e nuvens, drama"

"de cima pra baixo tudo é telhado"

 "sem título #22"

"uma noiva baixo augusta"

"ocorrência"

"natureza morta #19"

"luz(es)"

"sombra, fios e vice-versa"

quinta-feira, 17 de maio de 2012

antônio nóbrega, 60 anos

e as coisas continuam rolando na revista brasileiros. agora na edição de maio saiu um perfil que fiz do antônio nóbrega sobre esse ano de 2012 cheio de novidades e comemorações. a entrevista aconteceu em sua casa perto da praça do pôr do sol, aqui em são paulo, e teve pouco mais de uma hora. como esse texto da brasileiros era mais genérico sobre o momento e seus planos ficou muita coisa de fora de uma conversa que tivemos sobre a dança brasileira, seus questionamentos, etc. acabei utilizando esse material bônus para um outro frila, dessa vez para o site revista de dança (já subo por aqui). e a caravana segue...


EM NOME DA DANÇA NACIONAL

Em momento no qual comemora 60 anos de vida, 40 de carreira e 20 de seu Teatro Brincante, Antônio Nóbrega coloca sua energia na criação de uma linguagem brasileira para a dança

Pouca gente imagina, mas antes de ser chamado, quatro décadas atrás, por Ariano Suassuna para integrar o lendário Quinteto Armorial, o músico, dançarino e ator Antônio Nóbrega não tinha interesse algum por cultura popular. Na verdade era mais desconhecimento do que qualquer outra coisa. “Meu pai me colocou para estudar violino ainda criança, aos 10 anos, e três anos depois montei um grupo com minhas irmãs. Mas a gente tocava músicas que ouvíamos na rádio e TV: Roberto Carlos, Beatles, a MPB dos festivais, canções francesas e latinas. O folclore não fazia parte da minha história, sequer de minha visibilidade”, explicou em entrevista na sua casa, em São Paulo. No entanto foi sua formação erudita na Escola de Belas Artes de Recife que chamou atenção de Suassuna.

Nóbrega, que já vivia na dicotomia clássico-popular, passou a conhecer e se encantar por zabumbas, rabecas, caboclinhos, bumba-meu-boi e quetais. “Curiosamente comecei a me entender e a me deixar seduzir também pelo universo da dança, pelo frevo. Na época não tinha preocupação em compreender esse me encantamento, simplesmente o vivia”. E lá se foi o pernambucano mergulhando profundamente nesse novo mundo ao mesmo tempo em que ficava conhecido Brasil afora nos shows e discos do Quinteto Armorial, entre eles Do Romance ao Galope Nordestino (1974) e Aralume (1976). “Teve momentos dessa jornada em que eu era quase um nacionalista inveterado... como assim nós brasileiros não dançamos a nossa música, não cantamos e tocamos a nossa música?! Eu devia ser muito chato nessa época [risos]. Só depois coloquei esse brasileirismo na prateleira adequada”.

A mudança para São Paulo no início da década de 1980 com a recém-esposa, dançarina e parceira Rosane Almeida ajudou nessa adequação entre brasileirismos e universalismos (sem contar o nascimento dos filhos Gabriel e Maria Eugênia). Mas foi somente uma década depois, com a fundação do Teatro Brincante e a ótima recepção dos espetáculos-discos Na pancada do ganzá (1996) e Madeira que cupim não rói (1997), que o projeto cultural de Nóbrega começou a andar de espinha ereta.


Pouco a pouco, a dança foi ganhando mais destaque em seus trabalhos posteriores e Nóbrega tem a explicação na ponta da língua: “A dança de nossos palcos ainda é de extração tipicamente ocidental. Mas você não vê alguma coisa que traga uma representação simbólica do Brasil. Quando traz é de uma maneira muito frágil. Não é assim com a música de Villa-Lobos ou a literatura de Guimarães Rosa, por exemplo. Além d’eu ter me sentido chamado corporalmente pela dança também me senti compelido a fazer essa reflexão, talvez até por conta dessa ausência”.

Por essas e outras que entre seus muitos projetos futuros o que lhe é mais caro é a criação da Companhia de Dança Antônio Nóbrega, no qual tem a missão de ampliar a formação brasileira e popular de dez bailarinos junto com a criação de um espetáculo inédito previsto para meados de 2013. No entanto, o incansável artista quer ainda esse ano estrear um show em homenagem a Luiz Gonzaga e um longa inspirado no espetáculo Brincante (em sua quarta colaboração com o cineasta Walter Carvalho), além de uma série de eventos em seu teatro-instituto na Vila Madalena.

Com tudo isso na cabeça, o ágil Nóbrega chegou à conclusão que “a arte não vai mudar a ordem das coisas, mas tem o papel de ajudar a ter uma consciência um pouco mais completa para fazer a mudança”. E é dançando que ele quer chegar lá.




p.s.: e olha aqui como o texto ficou na página da revista.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

eletro sónar

olhaí 13 minutos da gang do eletro no começo do segundo dia do sónar são paulo 2012. foi o melhor e mais animado dos três shows que já assisti do quarteto paraense (tudo bem, sou fã, portanto não muito confiável). de qualquer forma, endoida irmão!


e aqui duas fotos que tirei do show (foco sempre em keila gentil e sua grande presença de palco, mas um salve também para maderito, waldo squash e william).



fiquei sabendo do video lá no avalanche tropical.

terça-feira, 15 de maio de 2012

yahoo #40

virada cultural já é coisa do passado, mas o texto que escrevi no yahoo ("um centro vivo e no virote") é mais sobre o centro de são paulo em si do que sobre o evento, portanto... e como de qualquer forma esse ano não consegui ver absolutamente nada... e veio o intenso festival sónar são paulo e sua maratona de dois dias ("o primeiro dia" e "o segundo dia"). vida que segue.





UM CENTRO VIVO E NO VIROTE

Todas as grandes cidades brasileiras possuem, em maior ou menor grau, um problema em comum. São mais que um, obviamente, mas ficarei aqui com o pecado capital: o abandono de seu centro. Os culpados são muitos, desde o poder público até a especulação imobiliária, passando pela miopia de uma sociedade que não quer ser responsável pelos rumos urbanos.

Em poucas palavras, o centro de uma cidade não pode ser deixado exclusivamente para o comércio. Tem que ter gente morando dia e noite, sempre. Tem que ter vida e qualidade de vida, mais que qualquer outro bairro ou região. Simplesmente porque o centro é o começo e a essência de uma cidade, sua história, memória, presente e futuro.

Copiado de um evento francês, a Virada Cultural, que acontece desde 2005 em São Paulo, tem sido um jeito interessante, mesmo que tímido em meras 24h, de injetar vida no belo, louco e abandonado centro paulistano (o evento também ganhou uma versão carioca e outra pelo interior de São Paulo). Talvez tenha sido um dos poucos projetos realmente públicos da dobradinha PSDB/DEM (ou, para os mais íntimos, Serra e Kassab) na gestão de São Paulo, pois esse pessoal costuma segregar mais que democratizar (isso mesmo, hoje em dia quem mais se diz democrata é quem menos quer democratizar). Falei sobre São Paulo e cidades em outros dois textos aqui para o Yahoo, “São Paulo, velha e louca” e “Arte que desmancha no ar”).


Já fui a várias edições, inclusive na de 2007 no meio do campo de batalha do não-show do Racionais MCs na Praça da Sé (e só virou batalha por causa da PM que mais uma vez fez “uso de força excessiva”). E em todas logo percebi que o mais bacana não era a variada infinitude de (algumas muito boas) atrações gratuitas e abertas, e sim ver aquela quantidade de gente indo a pé de um lugar para o outro no centro, mapinhas em mãos, procurando diversão e ocupando o espaço. Gente de tudo que é lugar, de tudo que é jeito, fazendo a cidade sua.

Claro que ainda falta muito, tanto pelo lado da Prefeitura de São Paulo quanto pela população, para esse idílio acontecer. Enquanto os números de frequentadores da Virada Cultural aumentam em termos de milhões, os problemas com lixo, higiene pública e segurança só pioram. Falta olhar mais para o lado, para os outros, porque só assim deixaremos de ser essas ilhas tristes dentro de nossa próprias casas.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

yahoo #39

me enchi da ana de hollanda e sua patota fazendo bobagens (pra dizer o mínimo) lá no ministério da cultura. e não sei o que é pior: as bobagens ou a nulidade dessa gestão. enfim, mas acabei escrevendo "banditismo por necessidade", mais um texto sobre o caso, e espero que seja o último. não quero mais saber desse assunto. o texto mais recente, "um centro vivo e no virote", chegou lá com um dia de atraso e trata da virada cultural e da relação de seu público com o centro. algo assim.





BANDITISMO POR NECESSIDADE

E a batalha continua. No mês passado, em 22 de março para ser mais preciso, escrevi aqui no Ultrapop o texto “Estamos perdidos?” que repercutia as primeiras denúncias de uma relação muito esquisita, para dizer o mínimo, entre o Ministério da Cultura (gestão Ana de Hollanda) e o famigerado ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição). Em nome de uma pretensa defesa dos direitos autorais de artistas brasileiros contra a malévola internet, o MinC vem assinando embaixo de tudo o que mestre manda (ECAD, gravadoras multinacionais, etc.) e quem for contrário é bandido, pirata da perna-de-pau.

Curiosamente (ou não?), a grande imprensa que gosta de denunciar malfeitos do governo federal mesmo quando são notícias plantadas com segundas intenções (vide caso Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira) se fez de cega, surda e muda nesse caso do MinC/ECAD. E olha que ontem foi o dia que saiu o relatório final da CPI do ECAD com direito a um pedido de indiciamento de 15 pessoas muito próximas a atual gestão do MinC por apropriação indébita de valores, fraude na realização de auditoria, formação de cartel e enriquecimento ilícito. Como se não bastasse, o relatório também propõe uma grande reforma no sistema de direito autoral brasileiro (atualmente, o 5º pior do mundo) e que a partir de agora a fiscalização seja feita mais duramente pelo Ministério da Justiça.

Se isso vai dar em algum resultado concreto só o tempo dirá, mas em casos assim é sempre bom ficar atento quais interesses estão em jogo. Ontem, por exemplo, a Editora Terceiro Nome divulgou no Facebook que todo o conteúdo do DVD que vem junto com o recém lançado livro Iconografia do Cangaço tinha vazado na internet. São preciosos 14 minutos de imagens de Lampião, Maria Bonita e sua gente filmados em 1937 (algumas delas tinha sido usadas no longa O Baile Perfumado, de 1997, mas quatro minutos desse material são inéditos). O pessoal da editora ficou babando de raiva? Tentaram derrubar o vídeo no YouTube? Nada disso, estavam felizes. Olha o vídeo abaixo (originalmente ele não tem áudio, então é recomendável colocar um som para acompanhar essas imagens históricas).


Agora, me deixa escrever na lousa. O pirata da perna-de-pau que subiu o vídeo não está ganhando dinheiro com isso. A editora não está deixando de vender seu (belo, aliás) livro por causa disso. E todos podem sair ganhando com o fato: o pirata por compartilhar (que é diferente de lucrar) e a editora por ter seu produto divulgado gratuitamente na rede. E olha que o mercado livreiro brasileiro, que também vem se mostrando descontente com o descaso do MinC (olhem esse abaixo-assinado), é um dos que mais sofrem em um país/sociedade que não estimula a leitura. Mas o pessoal da Terceiro Nome adorou a pirataria (e nem mencionei Paulo Coelho, um dos maiores vendedores de livros do mundo, que adora ver seus livros em download). E aí?

Em recente reportagem sobre ensino através de celulares e tablets que assinei na Revista Continuum, do Itaú Cultural, o editor Martin Restrepo afirmou que “não é justo que em um mundo em rede tenhamos que aprender com as metodologias de sempre”. Essa declaração pode muito bem ser ampliada para o mundo da cultura, afinal não somos consumidores passivos (nunca fomos na verdade, só nos faltavam os meios) porque também produzimos conteúdo (bom ou ruim é outra história). O MinC, bem como todas as secretarias de cultura municipais e estaduais, precisa entender de uma vez por todas que é um disparate defender organizações particulares em detrimento do bem comum em um mundo descentralizado e sem fronteiras. Quem é mesmo o bandido?

quinta-feira, 3 de maio de 2012

esforçando o instagram #03

mais uma leva. sem mais palavras.


"quando a noite cai"

 "bença"

 "rogério trentini e daniel almeida"

 "natureza morta #01"

"natureza morta #02"


 "it's a man's man's man's world"

 "natureza morta #03"

"dudu tsuda na loja do estilista joão pimenta"

"dudu tsuda e juliana r na loja de joão pimenta"

"olho direito & luz"

laerte da semana #36

e não é que roubaram a casa do laerte e levaram seu computador com boa parte de seu acervo?! daí que seus fãs começaram uma "corrente virtual" para tentar recuperar esse material. laerte agradeceu, mas aproveitou para dizer que "gostaria que as pessoas se ligassem mais em fatos como o que aconteceu na Praça da Sé no dia 2, em que a polícia investiu contra os sem-teto que estavam fazendo uma manifestação. Isso também é um assalto, é um roubo, é uma expropriação e essa gente não tem quem os defenda. São pessoas sem identidade, sem representação, infelizmente."

quarta-feira, 25 de abril de 2012

yahoo #38

o programa larica total é um velho e querido conhecido da casa e não poderia deixar de falar da estreia da terceira temporada lá no yahoo, mas o mais recente texto se chama "banditismo por necessidade" e é um novo capítulo da novela ministério-da-cultura-da-ana-de-hollanda & ecad.


A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA

Você conhece Paulo de Oliveira? Não? Deveria e para o seu próprio bem. Protagonista da série Larica Total, Paulo é boêmio, falido, peludo, solteirão, pegador e um entusiasta da “cozinha de guerrilha”. Também é interpretado pelo ator Paulo Tiefenthaler e está no ar desde outubro de 2008, sempre no Canal Brasil (semana passada estreou a terceira temporada que trará 26 episódios). Mas a troco de quê assistir um sujeito criando pratos bizarros como o Frango Total Flex, Moqueca de Ovo, Yakisobra ou Sushi de Feijoada, e ainda mais numa cozinha feia com utensílios caindo pelas tabelas? Porque o ficcional Paulo de Oliveira é muito de verdade e poucas coisas são tão surpreendentes, e potencialmente divertidas, quanto a realidade.

Diversão e anarquia como poucas vezes aconteceu na TV, Larica Total é retrato fiel tanto de novas produções independentes feitas na raça e viralizadas pela internet quanto por um jeito colaborativo de se relacionar com seu público (a receita do primeiro episódio da terceira temporada, por exemplo, veio de um internauta de Belém). Porém, a “sujeira” da realidade é uma das mais interessantes características do programa. Não existe a bancada limpinha e as ajudantes servis de Ana Maria Braga, muito menos os ingredientes especiais e a técnica apurada de Jamie Oliver. Paulo faz comida com o que tem na geladeira, como todos nós.


“O Larica Total não é culinária de qualquer jeito, é culinária a qualquer custo”, explicou um de seus diretores, Caíto Mainier, em ótimo making of da primeira temporada. Taí a mais pura verdade. Em um mundo no qual todos são descolados, cínicos e espertos, Paulo de Oliveira e seu programa são doses cavalares de galhofa e paixão.

E digo isso com a experiência de acompanhar Larica Total desde sua estreia e de já ter entrevistado Tiefenthaler duas vezes (“Comida kung fu” e “Xablablau no tucupi” foram escritas quando fui editor da Revista Monet). Sobre a segunda temporada, o carioca e flamenguista afirmou que “o personagem já não é mais tão inocente, ele tá mais rodado. Mas sempre vai existir o afeto, no sentido de estar afetado mesmo [risos]. Continuo equilibrando o tiozão, o amigão, o brother e, ao mesmo tempo, sendo charmoso pras moças [risos]. (...) Mas ainda quero fazer muita coisa com o Paulo de Oliveira, chamar amigos dele pra cozinhar, sair mais pra rua, e sempre dizendo por aí que o Larica é um programa libertário em nome do amor e da alegria.” E essa terceira temporada – cujos dias e horários de exibição são terças (21h30), quartas (16h) e domingos (13h30) – segue na mesma toada. Sorte de quem é de verdade.

p.s.: e antes que me esqueça... acho que o Canal Brasil deveria ser obrigatório nos pacotes mais baratos de todas as operadoras. E não por reserva de mercado ou nada parecido. Simplesmente porque é um canal com uma programação ótima, divertida e variada (e brasileira também, claro). No mais, segue abaixo um dos mais divertidos e didáticos episódios da primeira temporada.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ensino 2.0

na minha busca por veículos para escrever cruzei caminho com a revista continuum, do itaú cultural, e depois de uma rápida troca de emails ganhei minha primeira pauta. aceitei sem pestanejar, claro (baita revista bacana), mesmo não tendo a mais pálida ideia do assunto: mobile learning (educação pelo celular). mas como bem disse o colega sávio vilela no facebook, "isso é uma coisa legal no jornalismo: de repente você se dá conta de um negócio novo do qual nunca tinha ouvido falar e, num estalo, está aprendendo ao mesmo tempo que escreve sobre isso". foi exatamente isso que aconteceu e acho que consegui fazer um texto didático e com ideias sobre uma tecnologia que ainda está engatinhando (mas promete grandes surpresas). ah, "ensino 2.0" é o título da matéria na revista. o que dei é o que segue abaixo junto com a edição do autor-eu-mesmo. agradecimentos aos muy gentis marco aurélio fiochi, que me passou a pauta, e roberta dezan, que editou o texto.




APRENDIZADO SEM FRONTEIRAS


Novas tecnologias aliadas a proliferação dos mais variados dispositivos móveis em todas as camadas sociais no Brasil estão abrindo caminho para uma forma revolucionária de aprendizagem: o mobile learning


Durante séculos e em tudo que é canto do planeta, a estrutura hierárquica entre professores (donos da verdade) e alunos (passivos anotadores) se manteve inalterada, rígida, e isso acabou entranhando no próprio processo educativo, com raríssimas exceções. Mas nesse início de século 21, o que era sólido vem tomando outras formas e não deve demorar muito para a ideia que temos de sala de aula passar por mudanças radicais e a própria aprendizagem se tornar uma intensa via de mão dupla. Curiosamente, os dispositivos móveis (tablets, iPads, smartphones e celulares), grandes inimigos dos professores por seu poder dispersivo, estão entre as ferramentas que terão papel fundamental nesse novo estado das coisas.


“Não é justo que em um mundo em rede tenhamos que aprender com as metodologias de sempre. O mLearning [Mobile Learning] oferece a possibilidade de gerar conhecimento coletivo, de transformar educadores e alunos em verdadeiros produtores de conteúdo, apoiados em tecnologias de criação e publicação”, explica Martín Restrepo, colombiano radicado no Brasil que em 2008 fundou, em sociedade com Érica Casado, a Editacuja, uma editora transmídia que trabalha com projetos educacionais e de produção cultural. “Mas desde então nos aprofundamos no mundo do Mobile Learning e nas possibilidades de, com apoio de dispositivos móveis, fazer de qualquer lugar uma sala de aula”.


O campo para tal empreitada é gigantesco. Atualmente, no Brasil, são 242,2 milhões de dispositivos móveis, o que faz do país o 5º maior mercado de mobilidade do mundo, e Restrepo tem esses números na ponta da língua. Todo esse potencial fez com que este ex-engenheiro eletrônico lançasse no final de fevereiro a MEL (Mobile Education Lab), primeira comunidade colaborativa de projetos educacionais com dispositivos móveis da América Latina, durante o Mobile World Congress (GSMA), em Barcelona.


“Cada dispositivo móvel tem suas oportunidades e limitações. Se pensamos em um celular básico ele possui SMS, voz e recursos multimídia. Só com estes elementos posso desenhar atividades educacionais. Se pensamos em smartphones, temos a possibilidade de trabalhar com aplicativos, internet, mas neles não posso colocar um conteúdo muito extenso, a linguagem tem que ser outra. Com tablets, pelo tamanho das telas, consigo desenvolver livros interativos, com objetos em 3D, animações, infográficos e recursos que posso inserir nas minhas publicações, motivando sempre ao estudante a produzir conteúdo”, diz Restrepo. E essa é a parte mais complexa da história, explicar como se pode aplicar essa tecnologia no dia a dia de novas práticas de ensino enquanto se qualifica professores para utilizá-las.


“Mas o grande desafio não está nos aparelhos e sim no DNA da escola, e por isso que ela deve se preparar para mudar junto com as inovações que nos acompanham hoje”, segue explicando e cita algumas instituições espalhadas pelo país que estão começando a inserir tablets no seu material escolar, entre elas o Colégio Bandeirantes (São Paulo), o Centro Educacional Sigma (Brasília) e Colégio Ari de Sá (Fortaleza). Mas é o Lourenço Castanho, em São Paulo, o pioneiro na utilização do mLearning. 


Alexandre Abattepaulo, diretor geral, afirmou que o colégio paulistano se interessou pela “possibilidade de usar as novas tecnologias móveis como recurso didático diferenciado e não como simples substituto de livros. Outra questão fundamental foi a ideia da mobilidade, por meio da qual se pode ensinar e aprender em qualquer local. Sempre acreditamos que a aprendizagem se dá também fora dos muros da escola, levando os alunos para exposições, museus e organizando viagens de estudo do meio. Será mais uma opção de recurso didático que, se bem utilizada, contribuirá para aproximar o ensino da realidade dos jovens”. 


Fábia Antunes, professora do Lourenço Castanho, fez o curso de capacitação em mLearning e foi surpreendida para além de suas expectativas. “As aulas serão mais interessantes e significativas para os alunos, além do quê o trabalho interdisciplinar será mais viável. Especificamente para a minha disciplina [Educação Física], acredito que essa variedade de recursos multimídia trará mais reflexão sobre as práticas corporais na vida cotidiana”, declara.


A ideia não é substituir os livros e o ensino tradicional por uma infinidade labiríntica de aplicativos. É material complementar, um reforço necessário para um mundo de infinitas possibilidades. Restrepo, por exemplo, tem um sonho: “Imagino uma escola aberta que vai além dos seus próprios muros, se tornando o centro da comunidade e se abrindo ao público. (...) Onde a produção de conhecimento, de conteúdos e atividades faz parte de um imenso repositório coletivo, baseado na co-criação, na colaboração e na aprendizagem em rede. Temos hoje a grande oportunidade de reinventar a educação e a mobilidade está se tornando estratégica para que todo isso aconteça”.


e aqui abaixo segue a versão digital da revista que também pode ser baixada gratuitamente.




domingo, 22 de abril de 2012

tom zé convida...

um dos projetos contemplados no último edital do natura musical, o novo disco de tom zé, tropicália lixo lógico, está sendo gravado e alguns convidados especiais já deram o ar da graça no estúdio do artista baiano: emicida, mallu magalhães, pélico e rodrigo amarante. confira abaixo os encontros em fotos que tirei do instagram do jornalista marcus preto que está acompanhando a gravação.





e tem também um video com um pedacinho desse encontro de tom zé e amarante. olha só.

esforçando o instagram #02

olhaí a segunda edição dessa nova série fotográfica aqui do esforçado e dessa vez com duas fotos que não publiquei em nenhum outro lugar. cortei, fiz o efeitinho e por um motivo ou outro acabei não subindo. a das torres de transmissão foi porque já tinha subido uma parecida, só que p & b e em um ângulo diferente. a das flores... na hora achei que ficou boba, mas depois comecei a gostar. estão aqui...

"o tempo ruge"

"sem essa aranha"

"força, é preciso força"

"cinema brasileiro"

"antônio nóbrega"

"praça do pôr do sol, um casal"

"bananeira não sei"

"flores, sem título"

"amaury jr. pelo fundo da garrafa"

"mirando la lumiere, ora pois"